Hoje fui a Petrópolis, e o inverno começou.
Por isso entrei naquela fase de troca de armário, quando os casacos de cima são convidados a descer. Tirando a alergia que me ataca ferozmente nessa época do ano, adoro esses momentos de redescoberta. Todo casaco traz uma memória. É muito bom.
Também é bom se apaixonar novamente por certas peças esquecidas. Hoje reencontrei uma saia preta, evasê, na altura do joelho. Nunca me entendi com sua pala, vira e mexe a saia sambava. Mas hoje, depois de Petrópolis e do inverno, me ocorreu de combinar um cinto. E deu certo.
Engraçado hoje falar de Petrópolis, dia de um casamento real. Ainda não vi nenhuma foto, mas já perguntei pra duas pessoas como era o vestido da noiva - é bom saber da imagem pelo outro. Cada uma o descreveu de modo diferente. Mas nesse parágrafo eu ia dizer que estou lendo a biografia de João Cândido - o almirante negro - escrita pelo historiador Fernando Granato (editora Selo Negro, 22 reais). É um ótimo livro, muito importante a gente conhecer as outras histórias, as que ninguém tinha contado. Além de João Cândido, a Selo Negro também publicou as biografias de Abdias do Nascimento, Nei Lopes.
Estou descobrindo que meu parente presidente Hermes da Fonseca era no mínimo uma pessoa equivocada. Que Deus o tenha, e ainda bem que ele existiu. Só assim pôde nascer Pedro Paulino, meu querido bisavô que renegou anos de história familiar em busca de mais autenticidade na vida.
Enfim, o bom da internet é que você pode falar o que quer, e não necessariamente alguém vai ouvir. Tomara que alguém escute, pelo menos, essa história:
"O historiador José Murilo de Carvalho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, fez uma recente descoberta, que ajuda a desvendar o lado humano de João Cândido. Enquanto esteve preso na ilha, ele passava os dias sob a luz de um candeeiro, fazendo bordados com motivos marítimos. Assim, encontrou uma forma de extravasar seus sentimentos, já que estava traumatizado pelas mortes, revoltado pela traição do governo e fragilizado pela situação de preso incomunicável.
Os bordados foram localizados por José Murilo de Carvalho em 1985, no Museu Regional de São João Del Rei (MG). Foram doados ao museu por Antônio Manuel de Souza Guerra, conhecido na cidade como 'Niquinho' e que conhecera João Cândido em 1910, quando estivera, como militar, servindo na Ilha das Cobras.
Os bordados de João Cândido têm o formato de uma toalha de rosto. O primeiro deles, 'O adeus do marujo', encontra-se em boas condições de conservação, a não ser por uma mancha na sua metade inferior, ao que tudo indica causada pelo derramamento de algum líquido.
Em sua parte superior, estão bordadas as letras JCF, iniciais de João Cândido Felisberto. No centro, o título 'O adeus do marujo'. À direita, a palavra 'ordem'. No centro da toalha, na horizontal, duas mãos se cumprimentam e, na vertical, uma âncora intercepta as mãos. Circundando as mãos e parte da âncora, dois ramos (que lembram os ramos de café e tabaco da bandeira imperial e das armas da República). Abaixo da âncora, o nome F. D. Martins (referência a Francisco Dias Martins, comandante rebelde do Bahia). Embaixo, do lado esquerdo, a palavra 'liberdade', e do lado direito, a data 'XXII de novembro de MCMX'."
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sexta-feira, 29 de abril de 2011
sábado, 12 de março de 2011
Mariinha no carnaval
Sangue é coisa séria. Minha avó materna, Mariinha, morreu quando eu tinha quase oito anos. Não lembro muito dela, mas o pouco que eu lembro é bem nítido. Mariinha costurava, e bem, segundo minha mãe. Ela gostava de pintar blusas, tecidos, saquinhos de sapato. Lembro de uma tarde que passei na casa de uma amiga dela, muitas senhoras pintando. As senhoras faziam desse jeito, cada reunião era numa casa diferente. Nunca me disseram que era assim, mas imagino que fosse, porque também me lembro dessas reuniões na casa da minha avó, na Urca. A casa dela, aliás, é algo que me lembro com muita nitidez. Os detalhes das portas, o chão da sala de jantar, a cor do banheiro de visitas, o pote de cânfora na bancada, a cozinha, o quarto do meio e uma enciclopédia pra crianças antiga, de capa vermelha. E ainda mais: a iluminação da casa da minha avó.
Mas talvez a lembrança mais forte que eu tenha dela seja a textura da sua pele. É inexplicável. Cada um guarda consigo um pedacinho do outro, e assim as pessoas continuam: as pessoas continuam na fala do outro. Tenho um primo que se lembra muito bem da voz da minha avó. Ele diz que era um instrumento musical. Minha mãe vira e mexe sente o cheiro da minha avó. Eu lembro da pele dela.
Meus avós tinham uma casa afastada da cidade, no Recreio dos Bandeirantes (isso era muito longe há 20 anos), e os primos passavam uns dias das férias nessa casa, sem os pais, só primos e avós. Um dia eu, sempre chorona, estava morrendo de saudade dos meus pais, e chorava. Minha avó, com uma paciência que só as avós têm, me consolava. Ela estava sentada, eu no colo dela, e Mariinha me balançava. Dizia: "Não chora, sua pele vai ficar enrugada que nem maracujá." Eu não gostava quando minha avó dizia isso, e continuava a chorar. Esse é um momento chave da minha memória, da minha história. Foi ali que a pele da minha avó ficou impressa em mim.
Assim como uma memória chave que eu tenho da minha avó paterna, Nilda, é ela pescando num final de tarde no Posto 6, em Copacabana, com o maiô verde-água mais lindo do mundo. Foi ali que eu me apaixonei pelas cores.
O engraçado é eu gostar de roupas e costura, quando Mariinha um dia também gostou, e infelizmente nós nem tivemos tempo pra conversar sobre isso. Engraçado a gente também gostar de pintar tecido. Engraçado eu ter a mão e a letra da minha avó Nilda. Um dia eu perguntei se ela era professora. Nilda disse que não. Mas mesmo assim um dia eu quis ser.
Ainda aproveitando o rabo do carnaval, tudo isso pra mostrar a foto de Mariinha no carnaval de 1946. Com flores, laços e babados.
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| Mariinha, carnaval 1946 |
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Crise de indumentária I
Chegar aos 30 anos não é fácil. Nem aos 20, e muitíssimo menos aos 15, é verdade. Mas nessas idades menos avançadas a dificuldade está, pelo menos pra mim esteve, em aspectos menos palpáveis e mais conceituais. Eu nem lembrava que tinha corpo. Ou melhor, meu corpo era lembrado sempre como um instrumento de poder. Hoje, chegar aos 30, o jogo é outro. A dificuldade está no mais tangível, no literalmente palpável. Meu corpo passa por uma transformação tremenda, talvez ainda maior – porque agora sou consciente – do que aquela que disse respeito à transição criança-adolescente. São formas estranhas a mim: um braço mais arredondado, dobras extras, pernas mais grossas, rosto marcado. Balzac diz que somente a partir dos 30 anos a mulher mostra a personalidade no rosto. Descubro com dificuldade que posso ser mais gostosa assim: maior e mulher. Ontem, quando namorava, meu homem me apertou, apertou a carne que fica por cima da costela. E eu me senti segura. Não tive vergonha ou medo do excesso.
Mas a crise da idade aponta para outra, a crise de indumentária. Esse é apenas o primeiro capítulo de uma novela que, acho, ainda vai durar algum tempo. O que vestir nesse outro corpo? Qual imagem eu quero passar? Quem eu quero ser pro mundo? E pra mim? Quais as cores que me cabem agora? Há algum tempo meu armário tende a ficar mais monocromático: muito preto, branco e bege. Cinza e pouco vermelho. Muita saia preta e calça jeans. E às vezes me sinto tão velha. Outro dia ataquei duas minissaias: uma rosa e outra roxa. Percebi também em mim uma procura pelos tecidos que aparentam serem mais naturais e leves. Agora observo o caimento. Procuro os sapatos de salto médio, mas não resisto a uma Melissa/Jelly. Amo os Oxfords e sou fã de All Star. Parcelo em mil vezes sem juros uma compra na Uncle K e descubro o site All Bags, com mochilas incrivelmente coloridas. O fato é que se vestir tornou-se um ato elaborado, em que estão implicados diferentes fatores, que vão do humor ao bolso. Tangenciando tempo, clima, local, ocasião, acompanhante e dia do mês.
Mas a crise da idade aponta para outra, a crise de indumentária. Esse é apenas o primeiro capítulo de uma novela que, acho, ainda vai durar algum tempo. O que vestir nesse outro corpo? Qual imagem eu quero passar? Quem eu quero ser pro mundo? E pra mim? Quais as cores que me cabem agora? Há algum tempo meu armário tende a ficar mais monocromático: muito preto, branco e bege. Cinza e pouco vermelho. Muita saia preta e calça jeans. E às vezes me sinto tão velha. Outro dia ataquei duas minissaias: uma rosa e outra roxa. Percebi também em mim uma procura pelos tecidos que aparentam serem mais naturais e leves. Agora observo o caimento. Procuro os sapatos de salto médio, mas não resisto a uma Melissa/Jelly. Amo os Oxfords e sou fã de All Star. Parcelo em mil vezes sem juros uma compra na Uncle K e descubro o site All Bags, com mochilas incrivelmente coloridas. O fato é que se vestir tornou-se um ato elaborado, em que estão implicados diferentes fatores, que vão do humor ao bolso. Tangenciando tempo, clima, local, ocasião, acompanhante e dia do mês.
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