Sangue é coisa séria. Minha avó materna, Mariinha, morreu quando eu tinha quase oito anos. Não lembro muito dela, mas o pouco que eu lembro é bem nítido. Mariinha costurava, e bem, segundo minha mãe. Ela gostava de pintar blusas, tecidos, saquinhos de sapato. Lembro de uma tarde que passei na casa de uma amiga dela, muitas senhoras pintando. As senhoras faziam desse jeito, cada reunião era numa casa diferente. Nunca me disseram que era assim, mas imagino que fosse, porque também me lembro dessas reuniões na casa da minha avó, na Urca. A casa dela, aliás, é algo que me lembro com muita nitidez. Os detalhes das portas, o chão da sala de jantar, a cor do banheiro de visitas, o pote de cânfora na bancada, a cozinha, o quarto do meio e uma enciclopédia pra crianças antiga, de capa vermelha. E ainda mais: a iluminação da casa da minha avó.
Mas talvez a lembrança mais forte que eu tenha dela seja a textura da sua pele. É inexplicável. Cada um guarda consigo um pedacinho do outro, e assim as pessoas continuam: as pessoas continuam na fala do outro. Tenho um primo que se lembra muito bem da voz da minha avó. Ele diz que era um instrumento musical. Minha mãe vira e mexe sente o cheiro da minha avó. Eu lembro da pele dela.
Meus avós tinham uma casa afastada da cidade, no Recreio dos Bandeirantes (isso era muito longe há 20 anos), e os primos passavam uns dias das férias nessa casa, sem os pais, só primos e avós. Um dia eu, sempre chorona, estava morrendo de saudade dos meus pais, e chorava. Minha avó, com uma paciência que só as avós têm, me consolava. Ela estava sentada, eu no colo dela, e Mariinha me balançava. Dizia: "Não chora, sua pele vai ficar enrugada que nem maracujá." Eu não gostava quando minha avó dizia isso, e continuava a chorar. Esse é um momento chave da minha memória, da minha história. Foi ali que a pele da minha avó ficou impressa em mim.
Assim como uma memória chave que eu tenho da minha avó paterna, Nilda, é ela pescando num final de tarde no Posto 6, em Copacabana, com o maiô verde-água mais lindo do mundo. Foi ali que eu me apaixonei pelas cores.
O engraçado é eu gostar de roupas e costura, quando Mariinha um dia também gostou, e infelizmente nós nem tivemos tempo pra conversar sobre isso. Engraçado a gente também gostar de pintar tecido. Engraçado eu ter a mão e a letra da minha avó Nilda. Um dia eu perguntei se ela era professora. Nilda disse que não. Mas mesmo assim um dia eu quis ser.
Ainda aproveitando o rabo do carnaval, tudo isso pra mostrar a foto de Mariinha no carnaval de 1946. Com flores, laços e babados.
![]() |
Mariinha, carnaval 1946 |